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Meu Pé Esquerdo

 

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Meu Pé Esquerdo
Título original:
My Left Foot: The Story of Christy Brown - 103 min - Irlanda

Elenco:
Daniel Day-Lewis – Christy Brown
Brenda Fricker – Mrs. Brown
Alison Whelan – Sheila
Kirsten Sheridan – Sharon
Declan Croghan – Tom

Direção: Jim Sheridan

Roteiristas: Shane Connaughton, Jim Sheridan e Christy Brown (livro)
Gênero: Drama Biográfico

Sem dúvida, no último ano da década de 1980, a Sétima Arte desfrutou de dias inesquecíveis e de obras que registraram indelevelmente seus nomes na nossa cultura e no nosso imaginário. Em 1989, Tim Burton lançava o filme “Batman”, que abalaria os mais profundos paradigmas do gênero de “filmes de herói”; Oliver Stone recebia o prêmio da academia pelo polêmico “Nascido dia 4 de Julho”, catapultando a carreira de um ainda muito jovem e pouco reconhecido Tom Cruise; Robin Williams emocionava as plateias na pele de Tom Keating, em “Sociedade dos Poetas Mortos”. No cerne deste intenso vórtice cinematográfico, o cineasta de primeira viagem Jim Sheridan traz ao público o comovente “Meu Pé Esquerdo”.

Baseado na autobiografia homônima de Christy Brown, “My Left Foot”, o enredo nos apresenta a história de um garoto irlandês muito debilitado por um tipo de paralisia cerebral. Ele é membro de uma família muito pobre e divide os parcos recursos com seus pais e seus catorze irmãos. Seus familiares não desfrutam da menor possibilidade de buscar algum tipo de tratamento para Christy, sequer comprar uma simples cadeira de rodas para o garoto, fazendo com que sua única forma de mobilidade fosse ser carregado nos ombros da mãe por anos a fio. Apesar da enfermidade extremamente limitante, aos poucos Christy descobre possuir um tipo de coordenação motora mais desenvolvida em um único ponto de seu corpo: o pé esquerdo, que passa a ser a sua ferramenta de expressão, através da escrita e da pintura.

Já a primeira vista notamos, por parte de Jim Sheridan, uma direção comedida, seca e sem muitos floreios ou apelos sentimentalistas. O diretor não reduz Christy à sua deficiência e nem lança mão de recursos clichés para evocar a piedade do público em relação a este personagem. Ele nos apresenta Christy como um ser humano em sua plena complexidade, que transborda através de seus parcos e empedernidos movimentos, o filme nos apresenta um protagonista que sente medo, raiva, paixão e que desfruta de todas as antinomias da cartilha de relações humanas.

Cabe ressaltar aqui que grande parte do sucesso de “Meu Pé Esquerdo” não é mérito somente do cineasta, o elenco nos brinda com trabalhos de atuação primorosos e inesquecíveis. A começar por Daniel Day-Lewis, o protagonista. A entrega do ator ao dar vida a Christy Brown foi algo único. Ao interpretarem um papel assim, muitos atores inevitavelmente cairiam em alguns maneirismos estilísticos ou até mesmo no campo do caricato. Lewis entrega ao público um trabalho impecável, desde a expressão corporal de seu personagem, até as emoções de Christy que afloram de modo tão comovente, compondo-se e transbordando na tela após sobrepujarem a imensa barreira de suas limitações físicas. A dedicação de Daniel Day-Lewis a este trabalho, sem dúvida, chama muito a atenção, pois o ator permanecia imerso no personagem durante todo o tempo que estivesse no set de filmagem e a busca pelas expressões corporais perfeitas de Christy custou ao ator britânico duas costelas quebradas durante a produção. O prêmio da academia que recebeu por esta interpretação não foi apenas justo, mas também serviu para consagrar Daniel Day-Lewis como um dos maiores atores de sua geração.

Outro grande destaque nas atuações foi o trabalho de Brenda Fricker – vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por este papel – que interpretou a mãe do protagonista. A atriz conseguiu extrair de sua personagem o amor verdadeiro e genuíno de uma mãe, muito além dos dramas ou sentimentalismos baratos. Em nenhum momento a personagem de Brenda demonstra pena do filho pelas suas limitações, muito pelo contrário, ela faz de tudo para que Christy desfrute o máximo possível da vida, independentemente de sua doença; mesmo que tenha que carrega-lo nas costas ou passar privações ainda mais intensas para economizar dinheiro para lhe comprar uma cadeira de rodas. Nesse ponto é interessante observar como o trabalho de Brenda ao viver a mãe do protagonista, contrasta-se tão intensamente com a trabalho de Ray Mcanally, que interpreta o patriarca dos Brown. Ao contrário da mãe, esse personagem enxerga o garoto com uma carga muito grande de pena, remorso e incômodo.

No próximo ano (2019), “Meu Pé Esquerdo” completará três décadas de vida, no entanto os temas e as reflexões que o enredo levanta, continuam muito atuais. O que foi feito de lá para cá no quesito da inclusão de pessoas com algum tipo de limitação física ou mental? De lá para cá fomos capazes de enxergar essas pessoas como indivíduos, ou ainda as qualificamos e as julgamos genericamente com base apenas na deficiência que possui?


Rapha Mussato


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